Espelho

13 Outubro 2009
Digníssimos leitores, salve, salve!
Ando com pouco tempo e nenhuma inspiração pra escrever textos bacanas... os ensaios que começo são todos subjetivos demais, e alguns não valem a pena de serem publicados; outros, tomam forma e cor diferente daquilo que eu tinha na cabeça, misturo alguns anseios e pensamentos e, bem, o fato é que eu não ando curtindo o que tenho escrito. Por isso, publico hoje o trecho de um livro que fiz questão de sublinhar e guardar, pois acho de grande poesia e boniteza. Abraços a todos que me seguem, lêem, ou passam por aqui “vezemquando” saber de mim...

“Costumava acreditar que superaria isto. Que quando a dor por tudo que aconteceu o deixasse, voltaria a ter calor e se encheria de amor, e se encheria daquela curiosidade feroz e insaciável que demonstrou em nosso primeiro encontro [...]. Pensei que fizessem parte de você e não pudessem morrer. [...] E acreditei que o atrairia e o prenderia a mim. E teríamos muito tempo, seríamos professor um do outro. Todas as coisas que lhe trouxessem felicidade também me trariam, e eu seria o guardião da sua dor. Meu poder seria o seu poder. Minha força também. Mas você está morto por dentro, é frio e está fora de meu alcance! É como se não estivesse aqui, a seu lado. E, sem estar com você, tenho a terrível sensação de que simplesmente não existo. E você é tão insensível e distante quanto estas estranhas pinturas modernas de linhas e formas brutas que não posso amar ou compreender, tão enigmático quanto as esculturas mecânicas atuais, que não têm forma humana. Tremo quando estou próximo de você. Olho em seus olhos e não encontro o meu reflexo...”

Anne Rice, Entrevista com o Vampiro. (P. 304).

Esse trecho é um diálogo - para quem conhece a história - entre o vampiro Louis e o vampiro Armand; se eu pudesse materializar o vampiro Armand, ele seria mais ou menos assim (imagem extraída de outro blog de mesma opinião).

Fundamentos

12 Outubro 2009
"o que é paixão? o que é sombra? eu mesmo te pergunto e eu mesmo te respondo: Hillé, paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito, e também teu deserto. E sombra, Hillé, é nosso passo, nossa desesperançada subida."
Hilda Hilst.
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"Sabeis como desejo vivamente e como devoro os obstáculos; mas o que ignorais é quanto a solidão aumenta o ardor do desejo. [...] tenho necessidade de possuir essa mulher para redimir-me do ridículo de estar enamorado dela. Pois a que leva um desejo contrariado? Ó gozo delicioso!"
Choderlos de Laclos, "Carta IV, do Visconde de Valmont à Marquesa de Merteuil".
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"Que te demores, que me persigas
Como alguns perseguem as tulipas
Para prover o esquecimento de si.
Que te demores
Cobrindo-me de sumos e tintas
Na minha noite de fomes
Reflete-me.
Sou teu destino e poente.
Dorme."
Hilda Hilst.
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"- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se numa gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem, ele ou eu, estaria errado?
- Vós - respondeu com firmeza o principezinho.
- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar - replicou o rei."
Antoine de Saint-Exupéry.
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Como uma pedra que divide o rio

A busca e o desejo pela carne são coisas realmente incríveis; o toque, os lábios, a saliva, os olhos, tudo isso misturado numa fonte caleidoscópica de lembranças e gozo.

Achou que a lembrança daquela língua passando pelos seus mamilos, lambendo seu queixo e pescoço, gemendo baixinho enquanto roçava o cabelo no seu peito, fosse levitar seus pens amentos ao êxtase, alegrando-a e fazendo com que ela não esq uecesse aquele perfume. Diferente disto, a culpa a corrói, mas não é remorso. E xplica: repetiria o ato; faria de novo com que aquela língua chupasse seus m amilos, lamberia seus lábios da mesma forma como fez com a sua barriga, deixaria suas pernas contornarem seu corpo em cima do seu, uma, duas, trezentas vezes mais. Não se arrepende.

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Acordou d e ressaca.

O tempo que me consome

26 Setembro 2009
Fez um esforço enorme em respirar. Saltou trepidante, arfando de modo descontrolado, o suor escorrendo pelas maçãs do rosto, sentindo-o salgado chegando à sua boca.
Aquilo parecia tão real, a água entrando pelas narinas, pela boca, lânguida e receosa de ser absorvida, audaciosa, escorrendo pela sua garganta, salgada, ardendo no pulmão. Seus olhos vermelhos, ácidos, alucinados, por um instante pousaram sobre o corpo que via em sua frente, e pensou que estava enlouquecendo.
Aquele par de olhos verdes, examinando-o por completo, nu, sentia-se invadido pelo brilho daquelas duas esmeraldas, pela água que esmagava seu corpo cada vez mais fundo, pra escuridão, pro absoluto. E não só olhos, mas um par de mãos acariciando-o, duas coxas espremendo-o, uma boca engolindo-o, saliva misturada com saliva, com sal, com sol, com céu.
Sentiu o gosto se transformar de salgado para adocicado, e de repente não estava mais beijando aquela boca, mas ainda sentia um estranho gosto de vida em seus lábios, um gosto molhado e consistente, pegajoso, escorrendo por entre seus dentes, sentindo-o no rosto, nos cabelos, nos pêlos, inteiro. Já não estava afundando naquele mar imenso, mas em sua cama, molhado de suor e de desejo, ofegando alto, desesperado, tenso, lívido.
Acordou sobressaltado; era um sonho.


Cores

29 Agosto 2009

Costumo encontrar fascínio nas relações que estabeleço, e é tão engraçado ver pra onde as pessoas me remetem, cada uma delas, a lugares tão diferentes e unos, como se cada pessoa que já passou na minha vida se encontrasse em um porta-retrato no meu quarto, em um cenário de cor única, de cheiro embriagante e de persona fantástica.
Considero-me uma pessoa extremamente melancólica. E aqueles que passaram por mim, tão melancólicos quanto eu, acentuavam ainda mais minha melancolia, fazendo de mim um cara, por vezes, aparentemente triste, instrospectivo e circunscpecto, embora sempre oportunizando conversas instigantes sobre a vida, sobre as coisas. Em suma, tive conversas bem interessantes com aqueles que procuravam respostas tanto quanto eu, mas que, de certa forma, viam a vida de um modo igualmente saudosista.
De outro modo, pessoas alegres, joviais, extrovertidas e leves remetiam-me a cores vívidas, tornavam-me assim, tão tranquilo e leve quanto. É estranho pensar na influência delas desse modo, porque parece que sou uma pessoa extremamente influenciável, mas não é isso que quero dizer. O que penso, é que a companhia delas modificam o ambiente o qual me encontro de tal maneira que atinge também o meu estado de espírito.
É assim que me encontro agora: leve.
O peso das coisas cansa, quase sempre. É como aquela música da Vanessa da Mata, que diz, "tudo que quer me dar, é demais, é pesado, não há paz."
É reconfortante e agradabilíssimo viver as coisas sem esse peso.